Contra o corticoide, contra outro ácido hialurônico, contra a salina e contra os biológicos, a resposta muda com o comparador.
- Contra o corticoide: não inferioridade
- Contra outro ácido hialurônico, em cinco injeções: o ensaio CHASE
- Contra a salina: dois ensaios que não confirmaram o benefício
- Contra PRP, PRGF e células-tronco: onde o ácido hialurônico perdeu
- Quadril e outras articulações
- E o peso molecular?
- O que dá para dizer
- Referências
Quando um paciente com osteoartrite de joelho pergunta se vale a pena uma única injeção de ácido hialurônico, a resposta honesta começa com outra pergunta: comparada com o quê?
A viscossuplementação costuma ser prescrita em esquemas de uma a cinco injeções. O NASHA é um ácido hialurônico não animal, de origem biofermentativa, estabilizado por reticulação controlada para permanecer mais tempo na articulação, e foi desenhado para ser aplicado uma só vez. Em seis homens saudáveis, a eliminação do NASHA marcado do joelho teve três fases, com meias-vidas de 1,5 hora, 1,5 dia e 4 semanas, e os autores consideram a última a mais provável meia-vida real. A pergunta deste texto é o que os ensaios mostram sobre esse desenho de dose única, e com que grau de certeza.
Contra o corticoide: não inferioridade
Um ensaio randomizado, duplo-cego e multicêntrico, com 442 participantes e 26 semanas de seguimento, comparou uma injeção de NASHA com acetato de metilprednisolona em osteoartrite unilateral de joelho. Na semana 12, 44,6% dos pacientes do grupo NASHA eram respondedores de dor (WOMAC), contra 46,2% do grupo corticoide, e a não inferioridade foi demonstrada. Entre 12 e 26 semanas, o benefício do NASHA se manteve, enquanto o do corticoide diminuiu. Não houve eventos adversos graves relacionados ao dispositivo.
Não inferior não é superior. O ensaio sustenta que a dose única é uma alternativa ao corticoide intra-articular no joelho. Não sustenta que ela seja melhor.
Contra outro ácido hialurônico, em cinco injeções: o ensaio CHASE
No CHASE, ensaio multicêntrico e duplo-cego de não inferioridade com 26 semanas, 349 pacientes com osteoartrite de joelho foram randomizados para uma injeção de 3 mL de NASHA (com punções simuladas nas semanas 1 a 4) ou para cinco injeções semanais de 2,5 mL de outro ácido hialurônico. Completaram 26 semanas 319 pacientes (91,4%). A não inferioridade foi atendida em 18 e em 26 semanas para dor, função, rigidez e autoavaliação global, com resposta de eficácia acima de 90% nos dois braços. Os eventos adversos relacionados ao tratamento foram de 13,1% no grupo NASHA e de 9,8% no grupo de cinco injeções.
A diferença prática está no número de punções. Num ensaio menor, com 54 pacientes e sem cegamento, o NASHA em injeção única foi melhor no WOMAC da semana 26 e teve custo total de tratamento menor que o esquema de cinco injeções de um ácido hialurônico convencional.
Contra a salina: dois ensaios que não confirmaram o benefício
Dois ensaios randomizados, duplo-cegos e controlados por salina avaliaram uma injeção de NASHA no joelho, e em nenhum o desfecho primário mostrou diferença estatisticamente significativa.
| Estudo | Participantes | Desfecho primário | Análise post hoc |
|---|---|---|---|
| Altman, 2004 (26 semanas) | 346 | Sem diferença significativa entre os grupos. | Em 216 pacientes com osteoartrite restrita ao joelho, resposta maior com NASHA na semana 6 (p = 0,025). |
| Arden, 2014 (6 semanas) | 218 | Respondedores: 30,6% com NASHA e 26,4% com salina, sem diferença significativa. | Sem derrame clínico no início: 40,6% contra 19,7% (p = 0,0084). |
As análises de subgrupo foram definidas depois do resultado. Elas geram a hipótese de que o benefício apareça em quem não tem derrame ou tem doença restrita ao joelho, mas não a confirmam. Uma metanálise de 2017 que separou os estudos por número de injeções encontrou que os de injeção única, como grupo, não tiveram efeito significativo contra salina aos 3 e aos 6 meses.
Contra PRP, PRGF e células-tronco: onde o ácido hialurônico perdeu
Quatro ensaios randomizados colocaram o NASHA como o grupo de ácido hialurônico contra tratamentos biológicos, e em todos o outro braço foi melhor.
- PRGF-Endoret, três injeções semanais, contra uma injeção de NASHA (96 pacientes, 48 semanas): superior em dor, rigidez, função e taxas de resposta.
- PRP pobre em leucócitos, injeção única, contra NASHA e AINE (98 pacientes que concluíram, 52 semanas): melhor resultado clínico no grupo PRP, sem diferença na progressão radiográfica.
- Células mesenquimais de cordão umbilical (26 pacientes, fase I/II): só os grupos de células melhoraram de forma significativa.
- Células mesenquimais alogênicas de medula (30 pacientes, 1 ano): melhora significativa a favor das células sobre o ácido hialurônico de dose única.
São amostras pequenas a moderadas, com biológicos de preparo variável. Eles não invalidam a evidência contra o corticoide e contra outro ácido hialurônico, mas respondem à pergunta que o médico faz: existem alternativas que, em ensaios, superaram o ácido hialurônico de dose única.
Quadril e outras articulações
A indicação do NASHA registrada no Brasil é o joelho e o quadril. No quadril, um ensaio randomizado com 77 pacientes e injeção guiada por ultrassom mostrou respondedores em 74% com corticoide, 21% com salina, 11% com NASHA e 10% sem injeção. Uma série sem controle, com 87 pacientes, mostrou melhora do escore de Harris modificado de 58,5 para 71,3 em 6 semanas. A evidência no quadril é, portanto, heterogênea. Ombro, tornozelo e polegar têm séries de braço único, e estão fora da indicação registrada.
E o peso molecular?
Uma metanálise em rede de ensaios randomizados, que definiu o ácido hialurônico de alto peso molecular a partir de 6.000 kDa, encontrou melhora de dor que excedeu o limiar clinicamente importante (diferença padronizada de −0,57) para o de alto peso, e não para o de baixo peso. É um resultado da classe, não de um produto específico.
O que dá para dizer
- A dose única é uma alternativa ao corticoide intra-articular no joelho, com benefício mantido por mais tempo em um ensaio de não inferioridade.
- Uma injeção foi não inferior a cinco de outro ácido hialurônico no joelho, em 26 semanas.
- Contra a salina, os ensaios publicados de injeção única não confirmaram o benefício no desfecho primário.
- Contra PRP, PRGF e células-tronco, os ensaios foram favoráveis ao outro braço.
- No quadril, a evidência randomizada não favoreceu o NASHA, e os dados favoráveis são séries sem controle.
Predominam seguimentos de 6 a 26 semanas, e o efeito placebo da injeção intra-articular é relevante. A decisão depende do quadro clínico, da gravidade da osteoartrite e das preferências do paciente, e este texto não substitui a avaliação clínica nem a instrução de uso de cada produto.
Referências
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