Cinco trabalhos brasileiros aceitos, quatro e-posters e uma apresentação oral no principal encontro de infecção osteoarticular do mundo. O número importa menos do que o que foi construído em torno dele — e do que ele ainda não prova.
- De participação a ecossistema
- Cinco trabalhos, três territórios
- O que atravessa os três territórios
- O que a entrega local não resolve
- O que fica depois do Porto
A participação em congresso costuma ter começo, meio e fim: inscrição, estande, algumas conversas no corredor, e o assunto se encerra no voo de volta. O que a LAS levou ao Joint EBJIS-MSIS 2026, no Porto, foi pensado para não terminar ali.
De 17 a 19 de setembro, o encontro reuniu a European Bone and Joint Infection Society e a Musculoskeletal Infection Society — as duas sociedades que organizam, no mundo, a discussão sobre infecção osteoarticular. É o fórum em que desbridamento, entrega local de antibiótico e substitutos ósseos são debatidos antes de virar consenso. A presença brasileira nele foi esta:
| Número | O que representa |
|---|---|
| 5 de 5 | trabalhos aceitos — todas as submissões brasileiras apoiadas pela LAS |
| 4 | e-posters — EP112, ID 115, ID 338 e ID 690 |
| 1 | apresentação oral — o ID 197, como Short Communication, em 18/09 |
| 3 | territórios clínicos — fratura infectada, osteomielite crônica e pseudartrose infectada |
Fonte: portfólio científico da LAS para o Joint EBJIS-MSIS 2026. Aceitação em congresso mede o programa científico, não a eficácia de um produto.
Vale ser preciso sobre o que esses números medem, porque é isso que decide como o resto do texto deve ser lido. Cinco de cinco aceitos é um indicador de programa científico, não de eficácia clínica. Diz que as perguntas foram consideradas relevantes e que o desenho dos estudos passou pelo crivo de quem avalia submissão nesse campo. Não diz — nem pretende dizer — que um produto funciona.
De participação a ecossistema
A diferença não está no congresso; está no caminho até ele. Cada um dos cinco trabalhos passou pelo mesmo percurso, e é esse percurso que pode ser repetido:
- Seleção científica — casos e séries com relevância clínica real, vindos da prática de cirurgiões brasileiros.
- Resumo e submissão — objetivo, método, resultado e conclusão, com autores, afiliações e apresentador definidos.
- Material final — e-posters, apresentação oral e imagens clínicas, com revisão médica antes de cada envio.
- Presença no Porto — autores e representantes preparados para responder perguntas sobre os próprios dados.
- Desdobramento — o que foi produzido para o congresso volta como conteúdo de educação médica, em vez de ficar arquivado.
No centro disso estão pessoas, não um produto: médicos acompanhados um a um, da estruturação dos dados à apresentação. É isso que transforma cinco submissões numa rede clínica — e o que permite ao próximo ciclo começar de onde este parou, e não do zero.
Cinco trabalhos, três territórios
Lidos como lista, são cinco assuntos. Lidos como mapa, cobrem três territórios clínicos distintos — e o que os atravessa é uma estratégia: levar o antibiótico ao lugar da infecção.
| Trabalho | Autoria | Território clínico | Formato |
|---|---|---|---|
| EP112 | Dr. Fábio Lucas Rodrigues e Dr. Márcio Aita | Infecção relacionada a fratura | E-poster |
| ID 338 | Dr. Guilherme Falótico e Thomas Durigon | Infecção relacionada a fratura | E-poster |
| ID 115 | Dr. Márcio Aurelio Aita | Osteomielite crônica | E-poster |
| ID 197 | Dr. Flávio Cerqueira | Osteomielite crônica | Apresentação oral |
| ID 690 | Beatriz De Santana Soares, com o grupo Falótico–Durigon | Pseudartrose infectada complexa | E-poster |
Infecção relacionada a fratura
A infecção relacionada a fratura tem uma particularidade que a separa das outras: há um osso que precisa consolidar enquanto a infecção é tratada. Os dois objetivos competem — o material de síntese que sustenta a redução é também a superfície em que o biofilme se instala.
O EP112, do Dr. Fábio Lucas Rodrigues com o Dr. Márcio Aita, estudou a associação de substituto ósseo com vancomicina em fraturas de pilão tibial e de planalto tibial — dois cenários de alto risco de infecção. Nos 14 pacientes da coorte, os autores não observaram nenhuma infecção pós-operatória. O desenho precisa vir junto do número: é uma coorte retrospectiva, de braço único, com caráter piloto. Não há grupo de comparação, e catorze pacientes não estabelecem taxa de infecção — mostram que a pergunta merece um estudo maior.
O ID 338, do Dr. Guilherme Falótico e de Thomas Durigon, acompanhou 17 pacientes com infecção relacionada a fratura tratados com sulfato de cálcio e hidroxiapatita carregados com antibiótico. O perfil da série explica por que ela interessa: 71% com cultura tecidual positiva, 35% com infecção polimicrobiana e 47% com germe multirresistente, MRSA ou KPC. Não houve sepse, sintoma sistêmico nem readmissão, e houve uma reintervenção entre 12 e 24 semanas. Dos sete pacientes que já completaram 24 semanas, seis estavam sem falha clínica e cinco com consolidação óssea completa. É uma série inicial, com seguimento ainda incompleto para parte do grupo — e os próprios autores apontam a necessidade de estudos comparativos maiores.
Osteomielite crônica
Osteomielite crônica é onde a antibioticoterapia sistêmica encontra o seu limite físico: o osso desvitalizado e o biofilme reduzem a chegada do fármaco justamente onde ele precisaria estar em concentração alta. O ID 115, do Dr. Márcio Aurelio Aita, avalia clinicamente a combinação de métodos no tratamento da osteomielite crônica cavitária — o tipo em que o desbridamento deixa uma cavidade a preencher.
O ID 197, do Dr. Flávio Cerqueira, foi o trabalho escolhido para o palco: uma apresentação oral na tarde de 18 de setembro, feita pelo Dr. Diego Motta. É um estudo multicêntrico, prospectivo e randomizado sobre enxerto ósseo sintético com antibiótico na osteomielite crônica, olhando para carga hospitalar e número de cirurgias. Este texto não traz os resultados do ID 197: eles ainda não foram validados para comunicação aberta, e a orientação da própria LAS sobre o estudo é direta.
Pseudartrose infectada complexa
É o território do ID 690, de Beatriz De Santana Soares com o grupo Falótico–Durigon, e o mais difícil dos três, porque soma os problemas dos outros dois: infecção instalada, falha de consolidação estabelecida e, aqui, um germe multirresistente — Klebsiella pneumoniae. A série de casos descreve o uso do PerOssal® combinado com amicacina nesse cenário. É conteúdo de alta especialização, do tipo que se discute caso a caso, e é assim que deve ser lido.
O que atravessa os três territórios
O raciocínio é de física antes de ser de farmacologia. A concentração de antibiótico que chega ao osso infectado pela via sistêmica depende da perfusão — e a perfusão é exatamente o que a infecção crônica compromete. Entregar o antibiótico no local contorna esse limite: a concentração deixa de depender do que a circulação consegue levar até lá.
Quando o veículo dessa entrega é um substituto ósseo, há um segundo efeito: o espaço deixado pelo desbridamento é preenchido por um material que o organismo reabsorve enquanto forma osso novo. Desbridar, preencher, entregar o antibiótico ali — é esse arranjo que aparece, com variações, nos cinco trabalhos.
É também o terreno do PerOssal®, que a LAS distribui no Brasil: hidroxiapatita nanocristalina e sulfato de cálcio, com liberação local de antibiótico por até 10 dias, registro ANVISA nº 80517190044. E é aqui que o texto precisa ser honesto sobre o tamanho da afirmação.
O que a entrega local não resolve
- Não substitui o desbridamento. Nenhuma entrega local compensa tecido desvitalizado deixado no leito. A cirurgia continua sendo a parte que decide.
- Não dispensa a antibioticoterapia sistêmica nem a definição do agente. Cultura, antibiograma e infectologista continuam onde estavam.
- Não é solução universal. Cada indicação tem o seu registro e a sua instrução de uso, e generalizar de um território para outro é afirmação regulatória, não clínica.
- Não tem desfecho comparativo estabelecido nos trabalhos acima. Séries iniciais descrevem o que aconteceu; não comparam com o que teria acontecido.
O que fica depois do Porto
Um congresso rende pôster. Um ecossistema rende continuidade. O material que foi construído para o EBJIS-MSIS — resumos, e-posters, a apresentação oral, imagens clínicas autorizadas e as mensagens de cada estudo com os seus limites — foi pensado para ser reaproveitado em educação médica e na conversa com especialistas, território por território.
O passo seguinte é o que qualquer série inicial pede: mais pacientes, desenho comparativo e seguimento longo o bastante para que consolidação e recidiva tenham tempo de acontecer. O ciclo que a LAS quer repetir é esse — relacionamento com especialistas, dados, resumo, congresso, publicação, educação médica e novas perguntas. E a experiência clínica brasileira, que raramente aparece nesse fórum, ocupou três territórios diferentes: sinal de que não se trata de um grupo isolado com um assunto só.
Quer conhecer os cinco trabalhos em detalhe, discutir um caso de infecção óssea ou receber a ficha técnica do PerOssal®? Fale com a equipe da LAS. E siga a LAS no Instagram e no LinkedIn: é por lá que os desdobramentos do EBJIS-MSIS vão continuar, território por território.
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Bruno Rizzo
